domingo, 24 de maio de 2009

Afetos

É inesperadamente que me deparo com um olhar inimigo. Um encontro que surpreende os dois. Eu não a esperava ali, embora o espaço nos seja comum. Não àquela hora. Não naquele ponto de passagem. Há uma surpresa que nos atravessa, há mesmo um movimento – sutil – que vacila em nossos corpos simulando uma aproximação. Rapidamente nossos olhares se desviam. Posso dizer que meu olhar dura um pouco mais, pois eu a vejo dirigir a cabeça na direção contrária à que estou, em movimento ascendente. Empina o nariz, enquanto a boca se curva para baixo. Expressão de um ressentimento que dura. Quantos anos? Três, talvez quatro. Não suficientes para desfazer as cristalizações que determinaram nosso afastamento. Não posso acusá-la, pois em mim esse tempo também se prolonga, já que não faço esforço algum para alterar o movimento que desenha em seu corpo o gesto dessa mágoa que ainda o sustenta nesse inesperado encontro. Deixo-a ir.

Há outro momento, com outra pessoa. Com esta não há ruptura; permanecemos na proximidade. Duramos em nossos cristais, indefinidamente. Alternamos momentos leves com respostas duras. Há uma fragilidade que nos sustenta de alguma maneira. Uma fragilidade, não um laço frágil. Ao contrário, são duros e persistentes esses laços. Duramos. O ressentimento é vivido como infinito, construído de silêncios, queixas, gestos contidos e uma certa resignação. Pergunto-me, o que nos impede de testar nossos limites até alcançarmos outras margens? Experimentarmos uma ausência, por que não? Não sei. O que sei é que isso que nos une – essa paixão em suspensão – nos despotencializa.

Duas formas de encontro que não evitam, entretanto, que entre um e outro aconteçam encontros mais generosos. Se nos extremos estão os gestos inimigos, absolutizados, há muitos outros, cotidianos, que não chegam a confluir para um ponto específico, simplesmente acontecem, se prolongam, se modificam. São também durações, mas de outra qualidade. São laços, não necessariamente frágeis, mas que aparentemente não se comprometem a ponto de se tornarem exigentes de um depois. Nesses encontros, o tempo é sempre outro. Ele escorre, flui. Às vezes não me dou conta de quanto ele dura, da flutuação em que sua velocidade varia.

Mas não só isso. No momento em que os encontros acontecem, são múltiplas e diversas as passagens de força entre um e outro. Fruição do pensamento, estados afetivos que permitem o riso, o ligeiro, o intenso, o “sério”, o confessional... Estados de alma e estados de mundo são lugares dados ao trânsito... Interrompido o acontecimento, há o sentimento de que algo se potencializou, de que tudo continua, não necessariamente da mesma maneira. Esses laços, cuja condição parece ser a fragilidade, renovam-se em outros encontros, sem que o hiato angustie qualquer espera. Eles acontecem, isso é tudo. Permanecem, variáveis, ao longo dos anos, sem que percam sua força. Eles são.

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Imagem: preparação das peças da exposição Contidas regras - era dos "estados de violência" (2008), de Rogéria Maciel Meira, cujo tema é a violência do homem contemporâneo e a busca de saídas para combater seu crescimento.

terça-feira, 25 de março de 2008

Triângulos

A emergência de um terceiro no casal que constituímos com outra pessoa nos ameaça com o risco da perda, isso todos sabemos... Mas o que, efetivamente, estamos perdendo? Claro, aquele que amamos (às vezes não tanto mais), seu afeto (às vezes não tão intenso), sua presença (nem sempre tão presente)... Certamente, perdemos, muito mais, nossa referência, nossa composição, nosso corpo/alma que aprendeu a existir em relação com essa pessoa que amamos (ou que supomos amar) e que às vezes nem sequer consegue respirar sem ela, tão indistintos nos tornamos... Perdemos nosso corpo ao perder o outro corpo que nos dá essa dimensão do que somos... perdemos nossa suficiência, nosso território até então habitável. E tudo porque um terceiro emergiu nessa vida idílica que é tanto vivida como sonhada (às vezes mais sonhada que vivida).
O outro, o invasor que se torna alvo é, então, em todos os sentidos, uma ameaça à nossa integridade (mesmo que seja só uma pequena integridade). E ele é ameaça por que, provavelmente, conseguiu provocar nesse outro (amado), que nos constitui, mais alegrias que nós próprios conseguimos produzir (ou que conseguimos ter com ele). Eles se compõem melhor, é uma alegria maior, um prazer maior... É, enfim, a evidência de que não somos bastantes para essa vida a dois sonhada.
Quando estamos com alguém, criamos alguns hábitos, tanto os atravessados por acontecimentos intensos que nos alegram como aqueles que, por nos entristecerem, preferimos ignorar. Afinal, que relação não tem seus momentos alegres alternando com os tristes? Os tristes nos distanciam, nos calam, com freqüência deixamos passar (afinal, há o medo de maior distância se cobramos, se exigimos, se trazemos à baila o desconforto... são muitos os riscos...). Mas, bem ou mal, temos lá aquele outro ao nosso lado, aquele corpo que nos aquece quando sentimos frio... Tudo vai bem, até que aparece um terceiro que nos retira desse conforto (que pode ter se tornado já um tanto morno). E de repente aquela nossa pessoa querida se mostra animada de outra maneira. E não é por nós. Alguém a alegra mais que nós!!! Sinal de que nossos laços não eram tão fortes assim (rica, essa nossa linguagem: o que nos anima e nos liga e nos compõe designa também o que nos prende). E quem expôs essa evidência foi um terceiro que nem sequer conhecemos. Como não odiá-lo? Não fosse ele, nosso mundo perfeito e cômodo continuaria.
Partimos, então, para o ataque ao terceiro que nos desloca: que tal desqualificá-lo? Essa é uma estratégia, principalmente quando não o conhecemos, mas podemos imaginá-lo. Que tal ameaçá-lo, infernizá-lo, perturbar-lhe a alma... talvez ele desista. Tudo isso é mais fácil do que perguntarmos por nossas próprias composições com nossa "cara metade"... por aqueles estados de alma que, de há muito, já não vivemos, não experimentamos em sua companhia. Isso vale também para o ciumento obsessivo, que nem sequer precisa da existência do terceiro para sofrer. Só sua possibilidade é já um tormento. Ele se torna, então, um atormentador distanciado. Vigia tudo, está sempre atento ao menor gesto suspeito ("que alegria é essa em sua cara, hein?". Aquele que faz essa pergunta sabe que essa alegria não é com nem por ele, já que, vigilante, nunca está junto, de corpo inteiro com o vigiado.
Dizem tanto que o ciúme é o tempero da paixão ou do amor que é bom verificarmos como esse tempero potencializa (como o ajinomoto dos orientais...) o sabor amoroso ou o excede. Se é impossível evitar o tempero, é bom perguntar pelo que ele nos ensina.
O ciúme é um afeto triste. Seja ele imaginário, seja ele produzido por um outro em nosso caminho, ele é via do ódio (que eu chamo de "alegria dos que são tristes"). O estado amoroso, em sua intensidade e sua incerteza é tanto o desejo da própria alegria como da alegria do outro. É um canto afirmativo: existimos, podemos, consistimos. Se estamos com alguém, e nos compomos alegremente com ele, tornamo-nos outro, um outro ser realmente mais belo e forte do que quando sozinhos. Amar é tanto a realização da vida como seu conhecimento. O que quer que nos separe disso é tanto a tristeza da vida como sua ignorância. Só amamos na plena potência de existir, só conhecemos na plena potência de pensar. O que quer que nos separe da vida (e de nós, e do outro) nos fragiliza, nos anuncia a insuficiência de ser. Nossa impossibilidade.
Então, que aprendamos com esses afetos, alegres ou tristes, que nos movem o querer. Sem experimentá-los, não saberemos como e o que podemos ser; experimentando-os, aprendemos como ser, criamos nossos contornos. E esse outro que nos surge, repentino, e nos alegra (ou às vezes entristece), que seja nossa via régia, nosso bem, nossa força. Só assim toda forma de amor vale a pena...
Para concluir (provisoriamente): a emergência de um terceiro em uma relação pode ser o contrário do sofrimento: pode ser o momento de olharmos para nossos estares com a pessoa que dizemos amar. Pode ser o momento de nossa máxima alterabilidade, da descoberta de nossas melhores forças. De nosso melhor encontro. E, por que não, de nos tornarmos gratos ao que aparece para nos perturbar em nossas plácidas certezas. E se "perdemos", que a perda nos ensine a ser mais sensíveis às intensidades do que até então pudemos ser.

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Imagem: fotograma do filme As cinzas de deus, com Cia de Teatro Físico Zikzira e direção de André Semenza.

terça-feira, 18 de março de 2008

Escrever...


Prescreve o bom senso (com o qual a academia caminha em acordo) que só devemos escrever quando temos algo a dizer (não necessariamente algo original, mas fundamentado). Que não devemos nos apressar a escrever, pois a escrita demanda uma longa preparação. Uma preparação que passa por muitos modos de organização. Primeiro, criar os sistemas de referência; encontrar os autores, os saberes, o método, o ordenador simbólico que irá funcionar como uma autorização capaz de conferir ao nosso dito uma espécie de validação, uma certificação de origem. Encontradas essas balizas, passa-se para o plano. Não aquele que, em sua imanência, constitui um território habitável, mas o que antecipa uma regra para a depositação de nossos saberes, ainda que mínimos. Desenhado o plano, que inclui o método (nem isso, basta uma metodologia, de preferência uma escolhida entre as disponíveis nos manuais...), passa-se aos esboços de escrita. Esses esboços, claro, não caminham por si mesmos, devem passar pelo clivo de um terceiro, não um qualquer leitor, mas aquele autorizado, competente para avaliar a pertinência (com todos os sistemas de referência devidamente codificados) da escrita... Essa escrita, entretanto, não me encanta, nem é essa minha experiência de escrita. Só escrevo, só concebo algo a escrever quando não tenho, ao começar, o que dizer... A escrita do bom senso, invariavelmente, me paralisa. Não tenho o que dizer quando o que me convoca está nas alturas. Quando, o que me convoca, são as alturas.
Gosto de pensar que, ao escrever, nem sempre sabemos bem o que estamos fazendo ou dizendo. Há sempre um texto que se escreve ali onde algo escrevemos... Pois há (é necessário que) uma certa inocência na escrita, principalmente naquela que se faz fora das regras formais do bem-dizer acadêmico. É, aliás, essa inocência que confere ao texto um certo frescor, uma certa alegria, um certo inacabamento necessário para que ele se sustente. Um incitamento. Uma potência... Nada mais triste que um texto professoral, de alguém "que sabe" e se coloca na posição de expor seu saber a "quem não sabe". Textos dados de antemão...
Gosto desses textos que avançam sobre suas próprias incertezas, que fazem de seu inacabamento a possibilidade de continuarem. Eles são um modo de persistência... persistem em si mesmos, fazem-se lampejos, caminham intempestivos, arrastando tudo o que encontram pelo caminho, os portos, os sentidos, os nortes, prenhes de seu próprio excesso. Um excesso que é sua velocidade, sua parada repentina, sua alteração de ritmo. Pois tudo o que temos é isso, tempos, velocidades, afetos... Gosto desses textos que não se dão facilmente à compreensão, mas que entretanto ali estão, abertos, disponíveis a um leitor com o qual se construírem... Gosto desses textos nos quais tropeçamos, que nos fazem claudicar junto com eles, textos nos quais nos perdemos... ao mesmo tempo em que nos puxam, nos arrastam, nos impedem a parada, nos devolvem à deriva a cada vez que supomos ter conseguido uma ancoragem.
Quando leio, penso que não devo perguntar: "o que o autor quer dizer", pois estou já na imanência do dito, dos fluxos que arrastam as palavras, as frases, os sentidos. Estou na música, e se encontro uma paisagem, desejo que seja dessas que se desenham para rapidamente se dissolverem em outras paisagens. Esses são os textos com potência de me mover, de me pôr em movimento com eles...
Gosto desses textos que me convidam a inventar meus caminhos, textos que multiplicam meus próprios dizeres, minha própria escrita. É neles que encontro o que pensar, é com eles que meu corpo é forçado a pensar...

10.03.2008

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Imagem: o magnífico Escher. Drawing Hands, 1948.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Das intensidades de Claudio Assis...


Se Amarelo Manga é um rugido pulsante nas veias do mangue recifense, que não se interrompe em nós nem mesmo quando cessam as imagens sobre a tela, Baixio das Bestas é o império do silêncio opressivo dos quadros fixos que, em cada retorno, nos dão, sintético, mínimo, estático, o tempo que não passa no vai e vem de caminhões e de corpos assujeitados na monocultura canavieira da Zona da Mata. No trabalho e no sexo, é sempre o corpo (explorado) que é dobrado num destino de fixidez mórbida, posto que sem possibilidade de singularização. Como o rugido, o silêncio dura, insiste no corpo, se faz clivagem sobre o mal-estar. Pois o cinema de Claudio Assis é isso: uma instância de superexposição do que constitui nosso mal-estar, ao qual não resistem nem mesmo as belas almas, mesmo as mais persistentes na manutenção de suas suturas protetoras.
Inevitável: esse pernambucano que é hoje um dos mais expressivos, polêmicos, radicais e vitais da nova geração de cineastas do país move paixões e amealha tanto admiradores quanto detratores. Poucos reagem com indiferença às suas imagens e à intensidade de seu estilo narrativo. Os admiradores dizem: cinema visceral; os detratores: exibicionismo, perversidade, gratuidade, desejo de chocar... pornografia, niilismo... São mais abundantes os adjetivos dos detratores do que os dos admiradores. Entende-se: quando uma obra se impõe por sua força, de pouco lhe valem os adjetivos, elogiosos ou não. O que permanece é um afeto que ora nos anima de alegria, ora nos mergulha na estupefação de um irremediável e triste desencantamento. Que não tomemos, entretanto, a alegria como expressão de uma obscura perversidade a nos roer os ossos da bela forma, nem a estupefação como manifestação de uma consciência que (inevitável) nos encaminha para uma culpa geradora de, no máximo, murros impotentes no ar. Melhor deixar que o mal-estar encontre seu tempo e sua maturação, sustentando rugidos e silêncios. Em sua negação se cava a fossa, infinita em sua escavação infinita.
O cinema de Assis, que alguns apontam como excessivo (quando não fruto de um capricho rancoroso e niilista), é, efetivo em sua visceral vitalidade, sempre alegre. Pois, assim como não é necessário ser triste para ser militante (como nos recomenda Foucault), não é necessário ser severo ou sóbrio ou ponderado quando aquilo que se combate é atroz e nos faz tremer de indignação. A alegria, essa variação para uma perfeição maior, não necessita da forma do sorriso ou da vã e estéril esperança para se afirmar. Ama mais o homem aquele que o expõe em suas fragilidades e suas mazelas do que o que o adula e lhe afaga a cabeça, compassivo (este, na realidade, odeia sem saber que odeia, confundindo, na tristeza arrogante de seu afeto, seu ódio concreto com um abstrato e difuso amor [para com o próximo...]).
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...às intensidades do espectador
Perante um filme, não se trata de interpretá-lo (o que não se faz senão com o recurso a algo externo a ele, um modelo interpretativo, por exemplo, o que implica negá-lo como obra integral, afirmando que, enquanto obra, ele não se sustenta por si), mas de perguntar o que ele nos provoca, a que ele nos força. No cinema, mergulhado na sala escura e no conforto (ou desconforto, tanto faz) de uma poltrona, o corpo se apresenta a imagens projetadas em uma tela; imagens que, em sua duração, mudam. Sabemos (mesmo que só por experiência) que só assistimos bem a um filme se suspendemos, durante nossa presença às imagens, a consciência. Isto é, se nos desocupamos de ocupar nossa mente com o que quer que seja que não o fluxo de imagens ao qual nos entregamos, pois é à condição de nos entregarmos ao fluxo das imagens que podemos fruí-las. Assim, é principalmente o corpo e sua disponibilidade às afetações que está presente perante as imagens de um filme. "Sabemos" também - ou supomos - (mesmo que só por experiência) que, só após terminado um filme nos dispomos a pensá-lo. SUPOMOS, porque teríamos de crer que o pensamento se confunde com a consciência e que, como a consciência, o pensamento é algo que ocorre somente após a experiência e conhecimento de alguma coisa, o que só é concebível àquele que não é afeito à sua ativação. Contrariamente a isso, é necessário que afirmemos que, após o filme, o que ocorre é que nos damos conta - acede à nossa consciência, nos vêm à atenção - do que se pensava em nós durante a exposição a ele, pois o pensamento está ativo ao mesmo tempo em que o corpo, perante as imagens, é por elas afetado. Para que estejamos ativos perante um filme (e, com isso, para que acompanhemos de forma compreensiva o fluxo narrativo suportado pelas imagens), é necessário, pois, pensá-lo ao mesmo tempo que ele se apresenta. Mais especificamente: é necessário que as imagens fílmicas tenham a potência de forçar o corpo a pensar.
Forçar, na medida em que nos colocamos aí numa posição paradoxal. Se pensar é uma atividade, e se a fruição do fluxo de imagens demanda um corpo em estado de relaxamento e suspensão (da consciência, que é, primeiro, consciência do corpo em estado de recepção e passividade), e que esse estado é compreendido como de um corpo receptivo/[passivo], é necessário que possamos compreender o corpo receptivo não como passivo, mas sim ativo em sua receptividade, logo, é necessário que compreendamos a recepção como uma disposição ativa. Essa disposção ativa, longe de ser da natureza do corpo (sua natureza é de passividade), implica um esforço que, no cinema, deriva das imagens, ou, mais precisamente, da relação do espectador com elas. O que é ativa, podemos dizer, é essa relação.
Isso nos leva a um outro ponto. Assistir um filme exige estarmos implicados com ele, estarmos, com o filme, constituindo, numa dimensão relacional, um par nós[espectador]-imagens. Na relação com as imagens, é sempre numa dimensão afetiva que se dá essa implicação. Afetiva, na medida em que a imagem nos afeta, sem que possamos escolher de que maneira somos por ela afetados.

[cont.]
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Imagem: um tanto óbvio, o cartaz de divulgação de Baixio das bestas, de Claudio Assis.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Da maestria

Supõe-se, quase sempre, que de tudo que um mestre deseja, o mais central é conquistar discípulos. Suposição que, se pode ser dada como óbvia, ao ser assim pensada, leva ao encobrimento de uma armadilha, das mais fatais para a própria existência do mestre. Pois se é inevitável que um mestre precise de discípulos (essa talvez primeira forma de intercessor e/ou interlocutor), já que de pouco valeriam suas palavras e seus saberes se não houvesse a quem dirigi-los, ou quem os movesse, ou quem os fizesse proliferar, a persistência do discípulo no lugar de discipulo rapidamente transforma-se na morte do mestre. Não há nobreza [e][ou] sabedoria [e][ou] firmeza de princípios [e][ou] força desejante [e][ou] possibilidade de defesa do mestre que o salve desse destino, o de ser morto ou destituído por aquele que o consagra em seu lugar de mestre.
Caminhemos atentamente. Ser morto ou destituído como mestre não é, necessariamente, um mal. Ao contrário, pois não há mal pior do que o de desejar fixar-se e perpetuar-se na posição cristalizada de uma identidade. Se assim pensarmos, veremos rapidamente que nada mais desejável para aquele que ocupa, temporariamente, o lugar de um mestre que ser morto ou destituído por seus discípulos. Afinal, de que valeria um mestre capaz unicamente de produzir (eternos) discípulos?
Quando falo, então, dos riscos do mestre, aqueles que levam a sua destruição, devo insistir que não é o discípulo que destrói o mestre, mas que a fatalidade do mestre está na persistência do discípulo enquanto discípulo.
Vejamos. O que produz o discípulo, num primeiro momento, é um certo encantamento que a palavra do mestre produz nele. Muitas vezes não se trata sequer das palavras e seu peso, seu sentido, sua potência de agenciamento, mas de um certo jeito, de uma certa maneira de articular as palavras, tais e tais gestos que geram no discípulo um olhar e uma escuta encantados, não raro fascinados. Será movido por esse estado – um charme – que o já capturado discípulo aproxima-se daquele que ele eleje como seu mestre. A partir daí, ele irá se fazer presente a cada manifestação do mestre, à espera daquela frase, daquele gesto, daquela entonação que o faz sorrir e reconhecer, no outro à sua frente, sua própria consistência, sua própria materialidade.
Isso pode se estender por muito tempo. Pode não passar disso, dessa reiteração constante que faz da presença de um a certeza da presença do outro. Se permanecer aí, a existência do mestre pouco irá se alterar. Acostumado a essas presenças fascinadas, o mestre sabe muito bem que elas são efêmeras. Um dia o discípulo fascinado se cansará, elejerá outro mestre a quem seguir e a quem fazer responsável por sua própria consistência. Mesmo assim, por menor que seja, essas fascinações oferecem um risco ao mestre. Um risco narcísico, o de se deixar encantar por essas presenças fascinadas, fazendo desse seu agora encantamento sua armadilha: conservar-se sempre o mesmo, medindo cuidadosamente as palavras e os gestos capazes de sustentá-lo nessa posição, jamais se desviando disso que supostamente assegura a sustentação desse território tão belamente constituído... como se fosse um jogo de olhos que se eterniza.
Esta é a primeira morte do mestre, esse fascínio consigo mesmo que se afirma do fascínio que produz em um outro. [cont.]


* Texto em construção, iniciado em 19 de novembro de 2007, a continuar sabe-se lá quando [nota do dia 19 de março de 2008]
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Imagem: Escher, Moebius Strip, 1963.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Fragmentos de um Corpo Nu (2002)










[MOTO CONTÍNUO]

Um, dois, três, zero
No começo, três alternativas ofereciam-se às suas limitadas reflexões. Limitadas não por incapacidade, mas por juventude. A pouca experiência, ainda, não lhe permitia altos vôos, e qualquer intento de entregar-se a uma diletante autobiografia, uma de suas aspirações, parecia-lhe ruinoso. Não ultrapassaria três páginas de uma obra que sonhava caudalosa. Tratava-se, de qualquer forma, de algo que estava além, que não dizia respeito ao que quer que pudesse dizer ou pensar de uma vida ainda tão menina. O que, entretanto, não lhe impedia a aspiração. Iniciara várias vezes a ambição do dizer bem o que, lamentavelmente, não podia conceber claramente, o que, anos mais tarde, transformara-se em uma quase obsessão. Como conceber claramente algo, se passados os anos permanecia ainda preso à mesma ambição adolescente de ter o que dizer sob uma bela forma?
Depois de muitos esforços, e tomado pelo sentimento de que a bela forma é sempre insuficiente se não tem o que levantar consigo, fazendo dele um puro risco de tornar-se um esteta do nada a consentir, abandonara, por longo tempo, e não sem frustrar-se, a aventura. Que a bela forma se resolvesse primeiro, se é que, e, para resolvê-la, que ousasse caminhar mais abaixo, que buscasse o limbo e o lodo do que se tornara indizível.
Acostumara a sentar-se nu à escrivaninha, papéis à frente, imaculadas superfícies brancas que aguardavam por alguma contaminação. Contaminar, macular, desenobrecer, esse deveria ser o impulso facilitado pela nudez. Entretanto, embora nu, eram ainda as três alternativas da juventude seu tormento. A necessidade de passar o corpo ao branco, de transmitir ao branco as produções do corpo, de manchá-lo indelevelmente de suas secreções, de romper o muro criado pelas alternativas da juventude mostravam-se vãs. O máximo que conseguia era o suor do longo tempo imóvel e os quase imperceptíveis líquidos vazantes de seu corpo marcando a cadeira. Nada na escrita, nada no papel imaculadamente branco que revelasse as indeléveis nódoas que se esmerava, inutilmente, em limpar ali onde depusera o corpo.
Tratava-se, portanto, de encarar, em primeiro lugar, as alternativas da juventude, de excedê-las, de tentar ultrapassá-las. Só depois a escrita poderia talvez se tornar seu melhor possível.
Ao olhá-las de perto, entretanto, elas pareciam desdobrar-se infinitamente, revelando muitas outras dobras. Cada uma delas uma dobra, à primeira vista facilmente desdobrável por ser só uma, mostrava-se, ao iniciar o trabalho, objeto de um esforço sem fim. Mais resistentes até que as do corpo. Com quantas dobras se compõe uma dobra? Com quantos labirintos se faz um caminho reto? Olhar de perto é amplificar e reduzir o mundo. Uma linha não é somente uma linha, mas toda uma infinidade de vacilações e ensaios, de desvios e retomadas de caminho. Em todas as direções. Multiplicidades de pontos, de idas de um a outro, de retornos... Mais que três, muito mais que esse perfeito equilíbrio que, ao apresentar-se, só faz iludir de sua perfeição.
A cada aproximação, perder-se no emaranhado de linhas e pontos e curvas e atalhos e fragmentos de percurso levando a nenhum lugar apresentava-se como sina. Buscar uma alternativa outra. Tornara-se urgente sair para a cidade, procurar desfazer-se das proximidades do corpo mergulhando nelas. Ganhar a rua, caminhar supostamente determinado traçando sua linha entre um ponto e outro. Ignorar as próprias vacilações. Ignorar tudo o que o atrai, as luzes, as sonoridades, os tantos outros corpos que passam por ele sem esforços de aproximação. Que ele também evita. Viseiras é tudo o que se pode usar no caminho pelas ruas que tecem o impreciso traçado da cidade. Não poderia ser de outra maneira, pensa ele, sem que o tempo e o próprio espaço se esgarcem. Como ele, os outros pensam provavelmente o mesmo, por que não haveriam de, se como ele agem e caminham e evitam aproximações? Corpo, tempo, espaço, com certeza esse é o primeiro três. Condição mínima. O primeiro das três alternativas, a primeira dobra da primeira alternativa, a primeira dobra da primeira dobra da primeira alternativa. O que é já é muito.
Olha o cão, que jamais passa por outro sem cheirar-lhe o rabo. Lera em algum lugar que a passagem da posição curvada sobre quatro patas para a ereta, sobre dois pés, distanciara o homem de si mesmo, de seu corpo, de sua condição animal e suas formas de reconhecimento do semelhante. Fora Freud quem dissera isso, em um de seus malditos e incômodos textos, malgrado o cuidado e a elegância da escrita. Mais. Para compreender a cultura, para perguntar pelo que nos constitui, é necessário vasculhar-lhe as origens. Ir ao chão, ao lixo, aos resíduos, ao inútil, ao desprezível. Qual a coragem?
Sob o sol, caminhando suarento envolvido pelo perfume excessivo em sua já mistura, torcendo o nariz ao passar por lugares fétidos, qual a coragem? Como alterar isso, escapando às três alternativas das belas almas?
Na juventude, éramos também três, recorda. Uma pequena comunidade adolescente, atormentados, todos, pela lisura das belas almas que deveríamos cultivar. Éramos, cada um, uma das três alternativas que se desdobravam, por sua vez, em outras três, na desdobra infinita das dobras que nos compunham. As doces armadilhas. As ineludíveis explicações buscando manter à tona, à margem das palavras, a ignorância das profundezas e superfícies do corpo. Os severos confrontos que a solidão da amizade impedia que avançassem para além do cálido limite dos atos polidos, posto que ia além da polidez, atravessada de afetos capazes de superar rivalidades. Amigos com suas diferenças às vezes grandes e pouco ameaçadoras. Mais tarde distanciamo-nos, em nossos rumos diversos, recorda ainda. Tornamo-nos também diversos, quase divergentes. Perdemo-nos das notícias, cumprindo cada um, bem ou mal, o que tinha sido sonhado antes mesmo de sermos o que poderíamos ter sido. Sem tempo para o tornar-se, cada um, outro.
Dois retornaram ao lugar de origem. É o que se sabe, no jogo das lisuras. O terceiro, o homem que caminha, com certeza não. O que não significa que deixara de cumprir seu destino. O retorno ao lugar de origem, de alguma forma, é a aceitação das alternativas, de pelo menos uma. Não retornar, não. Não uma resolução, mas impossibilidade de permanecer com qualquer uma delas.
É assim que o homem que caminha atravessa as ruas tentando manter a linha reta, atraído por todos os atalhos sem se decidir por nenhum. Nenhuma das alternativas, seu inferno. Impossibilidade do três.

O zero
Na cidade sem sombras, os caminhos pareciam límpidos. Não era a falta de clareza que impedia fossem reconhecidos. Tratava-se de outra coisa, não de reconhecer caminhos, mas de reconhecer-se neles. De jamais saber se por ali seria possível caminhar. Talvez os outros dois pudessem, ele não. Na verdade, nenhum, embora algo sempre iluda como bom caminho. Traçados nítidos, na ilusão de sua suficiência, não bastam. Na certeza que a ausência de sombras assegura, o domínio é o da incerteza do próprio corpo exposto à luz. Ilusões da possessão, do poder de ser possuído ou de tomar posse. Passar por um caminho em um momento não assegura a mesma passagem, da mesma forma, no momento seguinte, essa a certeza sempre precoce. As ilusões da suficiência esbarram no convite a fazer corpo a ela. É pelas frestas da suficiência que o corpo escorre, mesmo que, na superfície, só seu suor, só seus excretos manifestem os efeitos dos esforços de aderência à ilusão. Seus preciosos excretos a se perderem no inesperado, no impreciso, na imponderável demanda a um outro. É a demanda que cria a impossibilidade da dádiva.
O terror da obediência que disfarça a recusa de servir constrói a ineludível impossibilidade do zero.

O um
O um era então pura imagem que ao se apresentar já anunciava uma ausência. Para além do organismo, é ela que faz o desenho do que pode o corpo. O contínuo desenho do corpo cria a superfície lisa para a qual conflui tudo o que vibra descontínuo sob a pele. Recuar da pele, trabalhar a composição dos fragmentos no entre da imagem na qual se faz um, todo um esforço. Sob o um o organismo ainda é sangue, esperma, merda, urina e suor que a imagem elide para criar corpo. Ou não. Falamos do espírito, mas é o corpo-organismo que nos aterroriza em sua possibilidade de retorno após ter sido descomposto. Impossibilidade do um.

O dois
Contra a imagem do corpo pulsa outro corpo como pura imagem que ameaça se desfazer. Para que a imagem se realize é necessário que um outro corpo surja e a ameace. Há pelo menos dois outros do um. Esse corpo que é próprio e o outro que se faz imagem na qual o desejo se perde. No entre dois, além de seu limite, é a própria descomposição que constrói a expectativa. Impossibilidade do dois.

O três
O mais um do dois é o que chega sem aviso. Pensar que isso é a ordem barra o acesso ao terceiro. Não se quer saber que o que separa une. Ambigüidade do três que entre dois os faz descontínuos. Dois é sempre menos um. O menos um os cria. Caosmos.

Cidade-um
O homem caminha pela cidade e recorda o cego que a reconhece moderna. A cidade é moderna, repete o cego a seu filho que nela chega sem tê-la ainda percorrido. A cidade é sempre moderna e por isso não se vê. Ama acolher cegos e odeia viseiras que limitem o olhar. Ela se dá, abre suas direções a todo e qualquer um. Mas ela se estria e então não se vê. A cidade que não pode ser vista se salva no liso aparente de sua superfície. Acolhe a proximidade dos corpos e traça caminhos para cada um deles. Oculta-os na proximidade dos muros, estabelece suas distâncias. Mínimas distâncias que tornam visível o que não se vê. Na cidade das ocultações todos os corpos se refletem e se separam nos muros que os definem e os limitam.
Sem sombras, a cidade é sempre um renovado pesadelo sob o sol da meia-noite.

Cidade-dois
Criar o necessário. Ao perder-se do caminho de retorno, não lhe reconhece mais as pedras, as estrias, as saliências e os desvios. Sabe que estão ali, a sua frente, mas não sabe se o corpo suporta sua travessia. Seria necessário um outro, que tivesse mergulhado antes nesse esquecimento que a memória não supera. Mais que saber, conhecer, criar o sentido. Mais que caminhar, conhecer o caminho e o sentido das pedras, das estrias, das saliências e dos desvios. O esquecimento desfaz os atalhos. O fácil não há.
Houve uma caminhada que se quis até a exaustão. Eram dois dos três, altivos no entusiasmo do começo, dispostos ao sol. Foram além do possível, sem pensar que um caminho se faz duas vezes quando o desejo é só de uma aventura. Pois era isso. A volta era incerta, o desejo não, o que fazia do ir um quase nada pronto a ceder perante a extinção da luz. Há o que não dura, algo que se aprende do caminho após tê-lo percorrido uma primeira vez. Percorrer de novo é sempre um excesso a que corpo nenhum se dispõe, mesmo sendo a isso que se obrigue. Como o dos dois, cediços no temor à noite. A volta frustra na boléia do caminhão, a memória do primeiro ensaio de partida que não chegara a ser. A cidade sem sombras ainda iria durar contra todo desejo de partida. Talvez para sempre, onde quer que os passos ensaiem as formas de caminhar contra o um.

Cidade-três
Certo. A cidade é sem sombras, e isso não a faz segura. O corpo deseja as sombras, a cidade as recusa. Mais. Força os gritos do corpo que se furta à luz, que devem soar nítidos e cristalinos quando o corpo encontra sua clausura no ponto mais alto da cidade. Os gritos do corpo advertem a todos os outros sobre as ameaças que pairam sobre aquele que se furta ao visível. Ocupar o ponto mais alto, ser ocultado na suprema visibilidade da cidade é a contínua ameaça à revolta contra o organismo que os olhos insistem em tornar um. Fragmentado, única forma de estar nu, esse é o corpo que busca compor-se quando se põe a caminho, em retorno à cidade.

Cidade zero
Esse é o ponto de forçagem. Não há retorno que não seja contra a cidade couraça, não há cidade que se oponha ao retorno que não seja, desde o princípio, essa uma. Um corpo só se afirma se despedaçando contra os muros, para além de seus gritos e contorções. Antes, um corpo apaziguado abandonando seus órgãos. Agora, esse outro que dispensa os órgãos em cada esquina para encontrar-se intenso. Seu grau zero.

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Imagem: foto de divulgação da peça musical La haine de la musique [Ódio pela música], da Compagnie Philippe Saire [Suíça], apresentada no Brasil em 2001 [34. Festival Internacional de Londrina - Filo 2001 e Teatro Sesc-Anchieta, São Paulo].