domingo, 24 de maio de 2009

Afetos

É inesperadamente que me deparo com um olhar inimigo. Um encontro que surpreende os dois. Eu não a esperava ali, embora o espaço nos seja comum. Não àquela hora. Não naquele ponto de passagem. Há uma surpresa que nos atravessa, há mesmo um movimento – sutil – que vacila em nossos corpos simulando uma aproximação. Rapidamente nossos olhares se desviam. Posso dizer que meu olhar dura um pouco mais, pois eu a vejo dirigir a cabeça na direção contrária à que estou, em movimento ascendente. Empina o nariz, enquanto a boca se curva para baixo. Expressão de um ressentimento que dura. Quantos anos? Três, talvez quatro. Não suficientes para desfazer as cristalizações que determinaram nosso afastamento. Não posso acusá-la, pois em mim esse tempo também se prolonga, já que não faço esforço algum para alterar o movimento que desenha em seu corpo o gesto dessa mágoa que ainda o sustenta nesse inesperado encontro. Deixo-a ir.

Há outro momento, com outra pessoa. Com esta não há ruptura; permanecemos na proximidade. Duramos em nossos cristais, indefinidamente. Alternamos momentos leves com respostas duras. Há uma fragilidade que nos sustenta de alguma maneira. Uma fragilidade, não um laço frágil. Ao contrário, são duros e persistentes esses laços. Duramos. O ressentimento é vivido como infinito, construído de silêncios, queixas, gestos contidos e uma certa resignação. Pergunto-me, o que nos impede de testar nossos limites até alcançarmos outras margens? Experimentarmos uma ausência, por que não? Não sei. O que sei é que isso que nos une – essa paixão em suspensão – nos despotencializa.

Duas formas de encontro que não evitam, entretanto, que entre um e outro aconteçam encontros mais generosos. Se nos extremos estão os gestos inimigos, absolutizados, há muitos outros, cotidianos, que não chegam a confluir para um ponto específico, simplesmente acontecem, se prolongam, se modificam. São também durações, mas de outra qualidade. São laços, não necessariamente frágeis, mas que aparentemente não se comprometem a ponto de se tornarem exigentes de um depois. Nesses encontros, o tempo é sempre outro. Ele escorre, flui. Às vezes não me dou conta de quanto ele dura, da flutuação em que sua velocidade varia.

Mas não só isso. No momento em que os encontros acontecem, são múltiplas e diversas as passagens de força entre um e outro. Fruição do pensamento, estados afetivos que permitem o riso, o ligeiro, o intenso, o “sério”, o confessional... Estados de alma e estados de mundo são lugares dados ao trânsito... Interrompido o acontecimento, há o sentimento de que algo se potencializou, de que tudo continua, não necessariamente da mesma maneira. Esses laços, cuja condição parece ser a fragilidade, renovam-se em outros encontros, sem que o hiato angustie qualquer espera. Eles acontecem, isso é tudo. Permanecem, variáveis, ao longo dos anos, sem que percam sua força. Eles são.

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Imagem: preparação das peças da exposição Contidas regras - era dos "estados de violência" (2008), de Rogéria Maciel Meira, cujo tema é a violência do homem contemporâneo e a busca de saídas para combater seu crescimento.

4 comentários:

Bruno e Joyce disse...

As intensidades escapam por todos os lados, ainda que viciados estejamos de uma busca de controle.
Fico feliz em conhecer mais um dispositivo meio nômade, meio marginal à quase tudo que se faz da internet hoje em dia...

Bruno Costa

Valter A. Rodrigues disse...

Pois é, Bruno. A internet, mesmo sendo uma virtualidade, uma potência, abriga os mesmos medos e os mesmos vícios dos espaços altamente territorializados que estamos habituados a sustentar. Ao mesmo tempo, é exatamente nesses espaços que desejamos resistir. Ou melhor, desejamos e agimos exatamente aí onde as resistências produzem seus nós, seus medos, seus vícios...

Inezteves disse...

Interagindo e desbravando outros mares...

Gabriela Guimarães disse...

fantástico.