segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Fragmentos de um Corpo Nu (2002)










[MOTO CONTÍNUO]

Um, dois, três, zero
No começo, três alternativas ofereciam-se às suas limitadas reflexões. Limitadas não por incapacidade, mas por juventude. A pouca experiência, ainda, não lhe permitia altos vôos, e qualquer intento de entregar-se a uma diletante autobiografia, uma de suas aspirações, parecia-lhe ruinoso. Não ultrapassaria três páginas de uma obra que sonhava caudalosa. Tratava-se, de qualquer forma, de algo que estava além, que não dizia respeito ao que quer que pudesse dizer ou pensar de uma vida ainda tão menina. O que, entretanto, não lhe impedia a aspiração. Iniciara várias vezes a ambição do dizer bem o que, lamentavelmente, não podia conceber claramente, o que, anos mais tarde, transformara-se em uma quase obsessão. Como conceber claramente algo, se passados os anos permanecia ainda preso à mesma ambição adolescente de ter o que dizer sob uma bela forma?
Depois de muitos esforços, e tomado pelo sentimento de que a bela forma é sempre insuficiente se não tem o que levantar consigo, fazendo dele um puro risco de tornar-se um esteta do nada a consentir, abandonara, por longo tempo, e não sem frustrar-se, a aventura. Que a bela forma se resolvesse primeiro, se é que, e, para resolvê-la, que ousasse caminhar mais abaixo, que buscasse o limbo e o lodo do que se tornara indizível.
Acostumara a sentar-se nu à escrivaninha, papéis à frente, imaculadas superfícies brancas que aguardavam por alguma contaminação. Contaminar, macular, desenobrecer, esse deveria ser o impulso facilitado pela nudez. Entretanto, embora nu, eram ainda as três alternativas da juventude seu tormento. A necessidade de passar o corpo ao branco, de transmitir ao branco as produções do corpo, de manchá-lo indelevelmente de suas secreções, de romper o muro criado pelas alternativas da juventude mostravam-se vãs. O máximo que conseguia era o suor do longo tempo imóvel e os quase imperceptíveis líquidos vazantes de seu corpo marcando a cadeira. Nada na escrita, nada no papel imaculadamente branco que revelasse as indeléveis nódoas que se esmerava, inutilmente, em limpar ali onde depusera o corpo.
Tratava-se, portanto, de encarar, em primeiro lugar, as alternativas da juventude, de excedê-las, de tentar ultrapassá-las. Só depois a escrita poderia talvez se tornar seu melhor possível.
Ao olhá-las de perto, entretanto, elas pareciam desdobrar-se infinitamente, revelando muitas outras dobras. Cada uma delas uma dobra, à primeira vista facilmente desdobrável por ser só uma, mostrava-se, ao iniciar o trabalho, objeto de um esforço sem fim. Mais resistentes até que as do corpo. Com quantas dobras se compõe uma dobra? Com quantos labirintos se faz um caminho reto? Olhar de perto é amplificar e reduzir o mundo. Uma linha não é somente uma linha, mas toda uma infinidade de vacilações e ensaios, de desvios e retomadas de caminho. Em todas as direções. Multiplicidades de pontos, de idas de um a outro, de retornos... Mais que três, muito mais que esse perfeito equilíbrio que, ao apresentar-se, só faz iludir de sua perfeição.
A cada aproximação, perder-se no emaranhado de linhas e pontos e curvas e atalhos e fragmentos de percurso levando a nenhum lugar apresentava-se como sina. Buscar uma alternativa outra. Tornara-se urgente sair para a cidade, procurar desfazer-se das proximidades do corpo mergulhando nelas. Ganhar a rua, caminhar supostamente determinado traçando sua linha entre um ponto e outro. Ignorar as próprias vacilações. Ignorar tudo o que o atrai, as luzes, as sonoridades, os tantos outros corpos que passam por ele sem esforços de aproximação. Que ele também evita. Viseiras é tudo o que se pode usar no caminho pelas ruas que tecem o impreciso traçado da cidade. Não poderia ser de outra maneira, pensa ele, sem que o tempo e o próprio espaço se esgarcem. Como ele, os outros pensam provavelmente o mesmo, por que não haveriam de, se como ele agem e caminham e evitam aproximações? Corpo, tempo, espaço, com certeza esse é o primeiro três. Condição mínima. O primeiro das três alternativas, a primeira dobra da primeira alternativa, a primeira dobra da primeira dobra da primeira alternativa. O que é já é muito.
Olha o cão, que jamais passa por outro sem cheirar-lhe o rabo. Lera em algum lugar que a passagem da posição curvada sobre quatro patas para a ereta, sobre dois pés, distanciara o homem de si mesmo, de seu corpo, de sua condição animal e suas formas de reconhecimento do semelhante. Fora Freud quem dissera isso, em um de seus malditos e incômodos textos, malgrado o cuidado e a elegância da escrita. Mais. Para compreender a cultura, para perguntar pelo que nos constitui, é necessário vasculhar-lhe as origens. Ir ao chão, ao lixo, aos resíduos, ao inútil, ao desprezível. Qual a coragem?
Sob o sol, caminhando suarento envolvido pelo perfume excessivo em sua já mistura, torcendo o nariz ao passar por lugares fétidos, qual a coragem? Como alterar isso, escapando às três alternativas das belas almas?
Na juventude, éramos também três, recorda. Uma pequena comunidade adolescente, atormentados, todos, pela lisura das belas almas que deveríamos cultivar. Éramos, cada um, uma das três alternativas que se desdobravam, por sua vez, em outras três, na desdobra infinita das dobras que nos compunham. As doces armadilhas. As ineludíveis explicações buscando manter à tona, à margem das palavras, a ignorância das profundezas e superfícies do corpo. Os severos confrontos que a solidão da amizade impedia que avançassem para além do cálido limite dos atos polidos, posto que ia além da polidez, atravessada de afetos capazes de superar rivalidades. Amigos com suas diferenças às vezes grandes e pouco ameaçadoras. Mais tarde distanciamo-nos, em nossos rumos diversos, recorda ainda. Tornamo-nos também diversos, quase divergentes. Perdemo-nos das notícias, cumprindo cada um, bem ou mal, o que tinha sido sonhado antes mesmo de sermos o que poderíamos ter sido. Sem tempo para o tornar-se, cada um, outro.
Dois retornaram ao lugar de origem. É o que se sabe, no jogo das lisuras. O terceiro, o homem que caminha, com certeza não. O que não significa que deixara de cumprir seu destino. O retorno ao lugar de origem, de alguma forma, é a aceitação das alternativas, de pelo menos uma. Não retornar, não. Não uma resolução, mas impossibilidade de permanecer com qualquer uma delas.
É assim que o homem que caminha atravessa as ruas tentando manter a linha reta, atraído por todos os atalhos sem se decidir por nenhum. Nenhuma das alternativas, seu inferno. Impossibilidade do três.

O zero
Na cidade sem sombras, os caminhos pareciam límpidos. Não era a falta de clareza que impedia fossem reconhecidos. Tratava-se de outra coisa, não de reconhecer caminhos, mas de reconhecer-se neles. De jamais saber se por ali seria possível caminhar. Talvez os outros dois pudessem, ele não. Na verdade, nenhum, embora algo sempre iluda como bom caminho. Traçados nítidos, na ilusão de sua suficiência, não bastam. Na certeza que a ausência de sombras assegura, o domínio é o da incerteza do próprio corpo exposto à luz. Ilusões da possessão, do poder de ser possuído ou de tomar posse. Passar por um caminho em um momento não assegura a mesma passagem, da mesma forma, no momento seguinte, essa a certeza sempre precoce. As ilusões da suficiência esbarram no convite a fazer corpo a ela. É pelas frestas da suficiência que o corpo escorre, mesmo que, na superfície, só seu suor, só seus excretos manifestem os efeitos dos esforços de aderência à ilusão. Seus preciosos excretos a se perderem no inesperado, no impreciso, na imponderável demanda a um outro. É a demanda que cria a impossibilidade da dádiva.
O terror da obediência que disfarça a recusa de servir constrói a ineludível impossibilidade do zero.

O um
O um era então pura imagem que ao se apresentar já anunciava uma ausência. Para além do organismo, é ela que faz o desenho do que pode o corpo. O contínuo desenho do corpo cria a superfície lisa para a qual conflui tudo o que vibra descontínuo sob a pele. Recuar da pele, trabalhar a composição dos fragmentos no entre da imagem na qual se faz um, todo um esforço. Sob o um o organismo ainda é sangue, esperma, merda, urina e suor que a imagem elide para criar corpo. Ou não. Falamos do espírito, mas é o corpo-organismo que nos aterroriza em sua possibilidade de retorno após ter sido descomposto. Impossibilidade do um.

O dois
Contra a imagem do corpo pulsa outro corpo como pura imagem que ameaça se desfazer. Para que a imagem se realize é necessário que um outro corpo surja e a ameace. Há pelo menos dois outros do um. Esse corpo que é próprio e o outro que se faz imagem na qual o desejo se perde. No entre dois, além de seu limite, é a própria descomposição que constrói a expectativa. Impossibilidade do dois.

O três
O mais um do dois é o que chega sem aviso. Pensar que isso é a ordem barra o acesso ao terceiro. Não se quer saber que o que separa une. Ambigüidade do três que entre dois os faz descontínuos. Dois é sempre menos um. O menos um os cria. Caosmos.

Cidade-um
O homem caminha pela cidade e recorda o cego que a reconhece moderna. A cidade é moderna, repete o cego a seu filho que nela chega sem tê-la ainda percorrido. A cidade é sempre moderna e por isso não se vê. Ama acolher cegos e odeia viseiras que limitem o olhar. Ela se dá, abre suas direções a todo e qualquer um. Mas ela se estria e então não se vê. A cidade que não pode ser vista se salva no liso aparente de sua superfície. Acolhe a proximidade dos corpos e traça caminhos para cada um deles. Oculta-os na proximidade dos muros, estabelece suas distâncias. Mínimas distâncias que tornam visível o que não se vê. Na cidade das ocultações todos os corpos se refletem e se separam nos muros que os definem e os limitam.
Sem sombras, a cidade é sempre um renovado pesadelo sob o sol da meia-noite.

Cidade-dois
Criar o necessário. Ao perder-se do caminho de retorno, não lhe reconhece mais as pedras, as estrias, as saliências e os desvios. Sabe que estão ali, a sua frente, mas não sabe se o corpo suporta sua travessia. Seria necessário um outro, que tivesse mergulhado antes nesse esquecimento que a memória não supera. Mais que saber, conhecer, criar o sentido. Mais que caminhar, conhecer o caminho e o sentido das pedras, das estrias, das saliências e dos desvios. O esquecimento desfaz os atalhos. O fácil não há.
Houve uma caminhada que se quis até a exaustão. Eram dois dos três, altivos no entusiasmo do começo, dispostos ao sol. Foram além do possível, sem pensar que um caminho se faz duas vezes quando o desejo é só de uma aventura. Pois era isso. A volta era incerta, o desejo não, o que fazia do ir um quase nada pronto a ceder perante a extinção da luz. Há o que não dura, algo que se aprende do caminho após tê-lo percorrido uma primeira vez. Percorrer de novo é sempre um excesso a que corpo nenhum se dispõe, mesmo sendo a isso que se obrigue. Como o dos dois, cediços no temor à noite. A volta frustra na boléia do caminhão, a memória do primeiro ensaio de partida que não chegara a ser. A cidade sem sombras ainda iria durar contra todo desejo de partida. Talvez para sempre, onde quer que os passos ensaiem as formas de caminhar contra o um.

Cidade-três
Certo. A cidade é sem sombras, e isso não a faz segura. O corpo deseja as sombras, a cidade as recusa. Mais. Força os gritos do corpo que se furta à luz, que devem soar nítidos e cristalinos quando o corpo encontra sua clausura no ponto mais alto da cidade. Os gritos do corpo advertem a todos os outros sobre as ameaças que pairam sobre aquele que se furta ao visível. Ocupar o ponto mais alto, ser ocultado na suprema visibilidade da cidade é a contínua ameaça à revolta contra o organismo que os olhos insistem em tornar um. Fragmentado, única forma de estar nu, esse é o corpo que busca compor-se quando se põe a caminho, em retorno à cidade.

Cidade zero
Esse é o ponto de forçagem. Não há retorno que não seja contra a cidade couraça, não há cidade que se oponha ao retorno que não seja, desde o princípio, essa uma. Um corpo só se afirma se despedaçando contra os muros, para além de seus gritos e contorções. Antes, um corpo apaziguado abandonando seus órgãos. Agora, esse outro que dispensa os órgãos em cada esquina para encontrar-se intenso. Seu grau zero.

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Imagem: foto de divulgação da peça musical La haine de la musique [Ódio pela música], da Compagnie Philippe Saire [Suíça], apresentada no Brasil em 2001 [34. Festival Internacional de Londrina - Filo 2001 e Teatro Sesc-Anchieta, São Paulo].

2 comentários:

Ozimar Júnior disse...

Fiquei impressionado com a pungência dos seus escritos. Realmente sua escrtas se entranha na filosofia/psicologia numa logicidades escatológica (kkkkkkkkk). Vou me tornar seu leitor. Valeu!!!!!!!!!!!!!!

http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=3091

Ozimar Júnior disse...

Fiquei impressionado com a pungência dos seus escritos. Realmente sua escrita se entranha na filosofia/psicologia, numa logicidades "escato-lógica"(kkkkkkkkk). Vou me tornar seu leitor. Valeu!!!!!!!!!!!!!!

http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=3091